O que fazer quando os gostos dos seus amigos são muito diferentes dos seus? Como posso me integrar se meus amigos gostam de funk e eu de jazz?
Esta é mais uma parte da conversa com o jovem homem que me pediu ajuda para se sentir mais confiante. Ele gostou das ideias sobre selfies e lista de qualidades, e perguntou como poderia ter mais amigos.
Fofura, qual sua opinião sobre o funk carioca?
É neutra? Você vê méritos?
Eu acho que o mais provável é que você tenha críticas ao funk, à estética, aos adeptos. Mesmo que seja de forma subconsciente, a maioria das pessoas torce o nariz para o funk e em geral podem facilmente falar muito mal.
Talvez tenha algo moral contra a sexualidade das letras, das danças, talvez não. Já que você escreve como se tivesse 50 anos em vez de 16 :) pode ser apenas algo como um choque de gerações. Alma velha num corpo de moço -- quantas pessoas com idade cronológica de 50 adorariam estar na sua situação.
Você é uma alma velha, e tudo bem, não há o que lamentar. Somos o que somos, o que a gente tem que fazer é nos conhecer melhor para podermos usar nossos dons e parar de alimentar nossas dores.
"Não suporto essa música" -- dizem que é um dos grandes indícios de que você definitivamnete ficou em outra geração. Ao mesmo tempo, como alma velha talvez não te seja difícil se imaginar casado, com filhos adolescentes, e seus filhos ouvem músicas que você estranha. Você é um pai amoroso. Vai se afastar deles, mandar eles desligarem? Ou vai tentar apreciar naqueles momentos, até se divertir com eles, mesmo que quando você estiver sozinho você prefira seu jazz, seu samba raíz?
Você parece uma pessoa suave, amorosa, carinhosa, e te imagino como o pai amoroso e não o tirano.
Na relação com os seus amigos, não é uma questão de se ver como superior, ou ter que ser condescendente, apenas de entender que vocês têm gostoso diferentes, mas para poder se integrar, você tem que assumir uma outra postura.
- Reflita se você tem algum preconceito contra a estética do funk carioca. Se você pensa em termos de vagabunda, horror, mau gosto, pobre, idiota. Se tiver, vai tentando se limpar dessas imagens e adjetivos. Caso tenha dificuldade com a tarefa, fale comigo, e posso escrever algo pra te ajudar.
- Você não é obrigado a gostar do que seus amigos gostam, mas em nome da socialização, você devia ser capaz de não sofrer e até aproveitar o que eles fazem. Quer dizer, supondo que não é nada degradante ou arriscado. Se seus amigos cheiram cocaína, participam de rachas, você não precisa fazer isso para socializar. Mas ouvir funk, ou dançar funk não tem nada demais.
Em qualquer situação, leveza e alegria são bons indicadores. Se você for capaz de se divertir, de rir, você está no caminho certo.
Você pode não gostar de funk, tudo bem. Mas você consegue dançar funk?
Porque se você não conseguir rebolar com o funk, tem algo muito errado com você, porque o funk é um ritmo extremamente dançante, e se você não está deixando o seu corpo se mover, tem algo te travando. Provavelmente algo moral, que é "arggghhh, essa música horrível, com essa letra pobre, essas pessoas fazendo gestos obscenos, machista, de baixo nível, credo".
Muitas músicas do funk carioca são tudo isso. Mas não deixam de ser dançantes.
Você não precisa gostar do funk, não precisa ser o que você ouve quando está sozinho, ou quando é você que pode escolher o que vai tocar. Mas se você sai com seus amigos e não consegue se divertir com o funk, dar risada, dançar, rebolar, mexer o popozão, eu diria que você tem questões para trabalhar.
Uns meses atrás fui pra uma balada com umas amigas. Eu não fazia isso há mais tempo do que você é vivo, e elas tinham se mudado para São Paulo há pouco tempo, então acho que isso contribuiu para a gente acabar em uma balada ruim, com gente jovem demais e uma seleção de músicas estranhas. Não é só opinião minha, elas tinham 30 e poucos, cariocas, e também se decepcionaram, mas como já estávamos lá, dançamos, nos divertimos. Eu me diverti em bancar o casal de lésbicas: quando um cara vinha pedir para me beijar, eu abraçava minha amiga e dizia que minha namorada era ciumenta, só para ver a cara do mocinho se afastar pedindo mil desculpas.
Ouvi umas músicas que nunca tinha ouvido. Uma delas um funk com o refrão "eu gosto de bucetaaaaa", e todo mundo cantava a plenos pulmões. Acho que eu não consegui cantar, mas estava achando aquilo bem bonito, é praticamente uma catarse.
Esta é minha sugestão: saia com seus amigos e divirta-se
Apenas divirta-se e não julgue. Deixe o julgamento na gaveta de casa, de preferência esqueça ele lá e nunca mais pegue de volta.
Considere no mínimo uma experiência antropológica, mas não com a superioridade do homem branco frente aos nativos, mas como uma oportunidade de você vivenciar coisa diferentes.
Divirta-se, surpreenda seus amigos. Se mostre humano.
"Nossa, quem diria, o fulano, que dizia que só gostava de jazz, de bossa nova, de samba raíz... o que aconteceu com você?"
"Estou deixando de ser besta. Eu ainda gosto muito de jazz, mas percebi que isso não é motivo para não me divertir com meus amigos. Fora que pra dançar, essas músicas são incríveis, não? Se eu soubesse que era tão divertido, já teria começado há anos".
E entenda que você não precisa ser um astro da dança. Cante com eles, ria, deixe o corpo se mexer um pouco, faça gestos cômicos ou ridículos.
Quando você tira a armadura, a aura do intelectual refinado, você vai ver como as portas se abrem pra você. Inclusive as garotas vão te olhar diferente, vão se interessar. E qualquer pessoa que tinha ressalvas de se aproximar de você por achar que você é esnobe vai descobrir que na verdade você é legal.
O que você puder fazer para se mostrar vulnerável e humano vai te aproximar das outras pessoas. Na rede social você viu meu texto sobre amigos, certo? A Importância da vulnerabilidade.
Quando você passar a agir com mais autoconfiança, saiba que essa sua peculiaridade dos gostos e de falar como se tivesse 50 anos em vez de 16 será só um charme a mais.
Vou responder sua outra pergunta em um post separado.
Sinta-se sempre à vontade para falar comigo.
Beijos com amor.
Fonte da imagem: https://www.dicasdemulher.com.br/como-dancar-funk/
Não assisti aos vídeos, mas aqui talvez já tenha umas dicas para você dançar. No YouTube com certeza tem muitos. Acho que você devia aprender alguns passinhos, só para fazer uma graça, mas também reserve um tempo em que você possa dançar sozinho, sem se importar se é feio ou bonito. Dançar, apenas dançar, sem se importar com o que as outras pessoas pensam é extremamente terapêutico.