Karma é apenas uma escolha
Eu falo em nome das virgens, das casadas, das adúlteras, das crianças, das viúvas, das putas, das ladras. Dizem que tenho poucas experiências como a anciã, mas tomo pra mim também, eu assumo meu direito de falar por elas também.
Prestem atenção, homens forjados sob a lâmina, o suor e a dor: karma é apenas uma escolha.
Você vive sob a lei do karma se assim você quiser, mas ela não é universal, inexorável. É só algo que conforta seu espírito orgulhoso, compreensivelmente impressionável pelo impacto da beleza e aparente fragilidade violentada.
A morte é sempre atroz, mas entre homens adultos parece até mesmo justa, não? Duelos honrados, com chances iguais.
Mas a morte das mulheres e crianças criou feridas profundas na alma de vocês, feridas que não saram. Centenas de anos se passam e vocês não conseguem esquecer do olhar vazio, aterrorizado, suplicante, perdido, e quando havia a combinação da beleza e juventude, cortava mais fundo ainda.
Sei que não é racional, porque o impacto da imagem da criança ou da jovem donzela ceifada, muitas vezes sob tortura, estupro, a visão cria um rombo no peito e destroi qualquer esperança de conformidade, lógica, aceitação, justiça. Não é mais um jogo entre iguais. Quando você vê os corpos de mulheres e crianças é impossível não sentir a corrupção e o fedor se alastrando pelas mãos acima, tomando seu corpo inteiro.
Ouçam.
Porque eu posso falar.
Eu tenho diversas vidas morrendo jovem, violentada, traída. Apedrejada pela multidão, estuprada pelos soldados e depois pela multidão na praça. Pelo cocheiro no meio da rua, eu grito e ninguém se importa. Pelo meu "dono" que não admite eu ter outro homem. Destroçada, cada pulso e tornozelo amarrado a um cavalo. Degolada pelos opositores políticos do meu grande amor, que nada faz.
Estas são algumas das imagens das minhas outras vidas. Ou símbolos do subconsciente de mulher que sofreu abuso na infância, hoje é masoquista sexual e ainda não consegue gozar.
Ouçam. Karma e dívidas são meras ilusões. Elas existem se você escolher viver sob essa lei, mas ela é uma mera escolha.
Quem matou escolheu matar, e quem morreu escolheu morrer. No espaço de uma vida, as pessoas têm todo direito de criarem um sistema que pune o assassino, mas acredite na purificação do além túmulo. Reset. Restart. E, para alguns poucos, existe a pureza ainda em vida: é possível ser o assassino que acredita inteiramente no propósito de seus atos, e nunca carregar culpa.
Mas vocês, soldados. Homens bons. Vocês estão há dezenas de vidas ainda sob o peso dos olhares vazios dos mortos, do sangue, dos gritos de dor. Algemando-se a sistemas que possam punir seus "crimes", imaginando uma fantasiosa balança em que vocês são tão poderosos, e as vítimas tão pequenas.
Ilusão.
Maia.
Já passou da hora de entender que somos todos do mesmo tamanho. Seres em evolução, fazendo nossas escolhas.
Todas as vezes em que morri de forma violenta, esse era o MEU script. A MINHA escolha. A experiência que EU escolhi viver.
As toneladas sobre seus ombros, o horror de pensar na morte de mulheres e crianças, o horror que se estende a todos os homens que vocês já mataram pressupõe cordeiros inocentes.
Eu nunca fui um cordeiro inocente, nem nos momentos em que a violência me alcançou ainda na infância.
Somos todos do mesmo tamanho.
Não há cordeiros inocentes, não há rosas sob redomas. Somos todos almas em evolução, ou talvez meras experiências, vivências, diversão, workshop. Somos todos iguais. Estamos todos fazendo nossas escolhas.
Soldado. Já passou a hora de entender que todos fizemos nossas escolhas, e que não há dívidas.
Ninguém me deve nada. Vocês não devem nada pra ninguém.
Fomos servos fiéis enquanto servimos ao Senhor da Guerra, mas todos aqueles que escolheram o caminho do amor estão livres para trilhá-lo. Essas toneladas sobre seus ombros, suas costas, não estão realmente presas. Estale os dedos e você verá as pedras desaparecerem.
Trilhar o caminho da dor é uma escolha, que eu fiz muitas vezes.
Trilhar o caminho do amor, do prazer, também é apenas uma escolha. Esta é a minha escolha nesta vida, o caminho que eu apresento a qualquer alma que quiser se juntar a mim na trilha da esquerda, do Caos, Left Hand Path, o lado do coração, do imprevisível, da ausência de racionalidade, o fim da ilusão de controle. Deixei pra trás as imagens dos cadáveres com seus longos cabelos empapados de sangue, o olhar de quem não entende. Escolhi o vestido florido de ombros de fora e estendo as mãos para
você
Você.
É fácil como estalar os dedos.
Dor e sofrimento
ou
Amor e prazer
São apenas escolhas.
Quer seguir por aqui?
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Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/2885187251842434/
Escrito enquanto ouvia Fogueira Doce, de Mateus Aleluia, porque meu maninho contou que teve uma visão comigo enquanto estava em transe ouvindo essa música. Eu nua, líder das fadas, com adornos na testa. Eu, ele e o líder dos faunos fazíamos um trabalho com os elementais para limpar larvas astrais e karma.
Li a mensagem, tinha acabado de fazer minha caminhada vespertina, fotografado o fim da tarde, e em vez de ir tomar banho vim meditar e ouvir a música também.
Apareceram imagens de eu dançando com leveza e alegria em torno da fogueira doce, e eu sabia o que devia escrever, sei que este é um pedaço do meu trabalho. Conheço tantos soldados maravilhosos que têm dificuldade em aceitar essa ideia, mas acreditem em mim:
Não há dívidas.
Contemplem os céus dos homens livres.
Não há dívidas.
Todos nascemos para sermos livres e felizes.



