Medo e sanidade mental em tempos de Covid

Eu tive medo da Covid uma vez, no ano passado, no início da pandemia. Fui ao supermercado, que estava estranhamente vazio e o medo parecia algo viscoso no ar. Mandei mensagem pra Chama falando disso, do medo. Mesmo na época em que ele falava comigo ele nunca respondia na hora, mas daquela vez ele respondeu. Me explicou que as pessoas têm medo sem nem ter certeza dos motivos, que o medo era algo contagioso e que eu não precisava entrar naquela sintonia. Para só respirar profundamente e que a sensação iria passar.

Foi como uma mão máscula massageando minha nuca.

Eu pratico isolamento social com rigor, nas semanas no hospital com meu pai usava a N95 o tempo todo, mal saio de casa, larguei meus contatinhos do Tinder e completei mais de 1 ano - uuum ano -- sem sexo (suspiro).

Mas medo mesmo, eu nunca mais tive.

Meus pais fazem parte do grupo de risco, meu pai mais ainda, motivos multiplicados. Em janeiro passamos quase um mês num hospital, agora tem a quimio, o ambulatório. A gente usa a N95, toma cuidados, se mantém afastados das pessoas. Mas nunca mais entrei na sintonia do medo.

Eu já vi um povo místico, e um povo tosco, e um povo místico e tosco negando a Covid, se posicionando contra a vacina. Que desgosto. Queria deixar claro que eu levo a Covid muito a sério, essa minha vida celibatária, acho que não tem prova maior do quanto eu levo a sério essa situação. Ah, mas queria deixar claro que não é algo radical. Não julgo e não condeno quem vê os crushes, é que no meu caso, não apareceu nada que valesse a pena considerar os riscos. Minha Chama não tinha nem coragem de tomar um café comigo -- acho que medo de contemplar meus olhos de girassóis negros e ser obrigado a confrontar a relação com a mamãe, e o Caçador é uma história recente, e nós dois não temos pressa.

Uma pequena observação: tenho uma boa noção de como tanta coisa que escrevo deve soar eu posando de gostosa e sabichona, e sinceramente lamento por isso. Para tentar minimizar essa sensação, tento sempre explicar que não me considero a dona da verdade, que apenas exponho meu ponto de vista e minhas ações. Que, só por coincidência, considero as melhores, tanto que optei por seguir esse caminho. Desculpem pelo tom meio pedante. Mas falo com sinceridade sobre ter certeza de que minhas escolhas são apenas um dos caminhos possíveis, que certamente há outras formas de lidar.

Voltando: eu levo a sério a Covid.

Sigo as recomendações de saúde pública.

Mas ao mesmo tempo tenho conseguido não vibrar no medo e na preocupação.

Quando vou com o meu pai na quimio, não fico pensando em como o sistema imunológico dele está fraco, em como ele está magro, que ele está frágil, como seria fácil ser contaminado. Não penso em nada disso. Se for pra pensar em algo, é que em breve ele estará curado, e nas comemorações que faremos.

Um pensamento melhor ainda, dizem os místicos (os não toscos) é que em situações assim se for para pensar em algo é "obrigada por meu pai já estar curado, sei que estamos apenas seguindo um protocolo, mas que ele já está curado, saudável, feliz, forte. Gratidão".

Ninguém sabe do futuro. A gente ficar pensando nas chances de algo dar merda não nos ajuda. O que eu quero dizer é que uma coisa é saber quais as medidas de precaução e prevenção, e cumprir. Mas só ficar pensando no cenário sombrio mina nossas forças, traz angústia e fraqueza. Traz estresse, e estresse abre portas pra doenças.

De vez em quando acontecem alguns incidentes com meu pai, umas coisas que minha mãe quase desmaia. Tem motivos de preocupação, mas nunca foco no pior. "Está tudo bem. Liga para a enfermeira e pede orientação. Mas mãe, olha pra mim, está tudo bem, respira, estamos tranquilos aqui, não vai acontecer nada ruim com o pai". Sei que meu constelador mandou eu parar de me ver maior do que meus pais, mas vou considerar uma situação pontual.. minha mãe é porreta em muita coisa, mas aqui é como se fosse a fraqueza dela, as coisas relacionadas com sangue, ferimentos, ela não tem estômago.

O fundamental é não entrar na sintonia do medo, porque o medo facilmente te engole e te paralisa. 

Aliás... vide minha Chama, que é tão corajoso e destemido pra tanta coisa -- ele achava que em tudo, mas me ver se tornou algo assustador e paralisante. Talvez você cogite "Kalista, você já pensou que ele apenas não gosta de você e se importa tão pouco que você não merece nem uma mensagem de fim de relação?". E a resposta é sim, já considerei essa possibilidade. Mas isso o tornaria alguém tão desumano que estoura qualquer parâmetro, significaria que eu estava TOTALMENTE errada no que senti e acredite sobre o caráter dele. Então entre pensar que eu fui burra num grau absurdo, e que tudo que sentia sobre ele estava errado, ou acreditar que ele está só paralisado de medo da mamãe, tenho ficado com a versão do medo da mamãe :)

Desculpem pela digressão,voltando ao tema da Covid. Minha sugestão de bruxa de como lidar com esse cenário:

- Seguir as recomendações dos médicos, das autoridades.

- Mas não se permitir se perder nos pensamentos dolorosos, negativos, de futuro sombrio.

- Ou você pensa na pessoa curada, visualiza ela saudável, envia boas energias. Ou então esqueça que ela está doente, esqueça dela, se ocupe de outras coisas. Não é ser desnaturada não pensar na pessoa, porque quando você pensa sentindo medo e preocupação, você não está ajudando e no mínimo você está se prejudicando, por produzir estresse pro seu corpo.

Minha avó, a mãe da minha mãe, era uma pessoa maravilhosa, talvez um dos melhores seres humanos que já conheci. No ano em que ela faleceu, ela teve várias idas e vindas do hospital. Eu já morava em São Paulo, só podia visitá-la nos fins de semana, e visitava, mas sem preocupação. No ritmo que eu costumava fazer de no geral uma vez por mês.

Pode me chamar de burra, mas eu não pensava que ela estava morrendo. Pra ser sincera, uma vez me ocorreu que talvez ela estivesse morrendo, mas perguntei pro guruzinho, um amigo muito querido sensitivo, e ele me disse "vai ficar tudo bem". Então pra mim, era só uma fase ruim, logo ela estaria de volta. Era minha avó, é claro que ela não morreria no hospital, logo ela estaria bem, em casa, cantando, feliz.

Até hoje sou grata por esse meu amigo ter me falado que ia ficar tudo bem, mesmo que ele tenha sentido que ela ia morrer. Eu a a amava tanto, acho que não teria suportado visitá-la, olhar pra ela, conversar com ela, se eu tivesse recebido o vaticínio "ela morre em setembro".

Para quem está com parentes com Covid, ou com alguma situação grave, eu sinto muito por essa situação, e essa história não é para te colocar na sintonia da morte. E sim a da leveza.

É algo bem precioso lembrar do tempo com minha avó papeando como se logo ela estivesse bem e de volta à casa dela. Sinto que meu pai também se sente bem por eu nunca olhar pra ele com pena, por não vibrar no medo.

Tenho um amigo-crush-rolo que passou por uma quimio durante a pandemia, eu estava morrendo de preocupação, mais ainda porque ele não me explicava direito o que estava acontecendo, o que os médicos tinham falado. Aquilo estava me enlouquecendo. Ele teve que me explicar "eu não quero que você converse comigo sobre isso, que você me faça perguntas. O tempo com você, quero esquecer que eu tenho essa merda, quero ter o direito de ser um homem comum".

Sei que as pessoas podem ter visões diferentes, mas nas minhas experiências com doenças e morte, o que concluí é que vibrar no medo e na preocupação só piora tudo. E, no caso da pessoa convalescente, acredito que a maioria delas quer que as pessoas conversem com elas com leveza, otimismo, minimizando a gravidade e trazendo, na medida do possível, a sensação de normalidade.

Mais uma vez, peço desculpas se meus conselhos estiverem soando arrogantes. Não quero impor nada pra ninguém, muito menos desprezar ou criticar quem está sofrendo, morrendo de angústia e preocupação, sei como pode ser difícil e horrível.

Mas muitas das coisas que escrevo têm a ver com o poder que você pode assumir de controlar o que ocorre no seu Palácio da Mente, ao direcionar seu emocional para um ponto de vista que te ajuda, e não um que te enfraquece. E mesmo para a Covid também é assim. Entendo que pode ser muito difícil, entendo quantos privilégios tenho no isolamento social, confortos. Mas na minha experiência, sei que quando conseguimos nos afastar dos pensamentos de medo e preocupação, tudo flui melhor.

Beijos com muito amor. 

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