Por que não pretendo convencer ninguém
Esta é a parte final de um texto comprido que escrevi hoje para uma conversa sobre fórmulas matemáticas de beleza e julgamento. Se quiser ler na ordem, o primeiro texto é o "Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos", e depois siga na ordem.
Eu não gosto de assumir uma postura rude, mas já te falei disso tantas vezes de tantas formas diferentes, que vou tentar algo radical: pra mim essa sua insistência em falar com orgulho sobre seu olhar impecável, sobre o quanto é bom você ser exigente e rigorosa, são demonstrações de fraqueza, fragilidade, e escravidão.
E tudo bem e você quiser viver assim, é apenas uma escolha. Se você gosta dessa estrutura, dessa imagem como a mulher dura, guerreira, de aço, de ferro, implacável, cortante, ok, tudo bem.
Mas acho que enquanto você acreditar que ser rigorosa, ter olhar impecável, pensar nas pessoas em termos de proporção e simetria, julgar todo mundo em termos de bonito ou feio -- não importa que você não fale para a garota plus size ou bunduda que você acha ela feia, que você só fale pro seu marido, o fato de você pensar "isso é feio. Isso é de mau gosto. Isso é urgh, tão brasileiro, ai que horror, que nojo" -- enquanto você achar que não tem problema algum nessa postura de julgar, acho que não tem muito o que conversarmos ou como eu te ajudar.
Não tenho objetivo de te convencer que estou certa.
É como eu falei daquela citação da Sigourney Belle. Se você me diz "Eu sou muito argumentativa e vou questionar e preciso que você me convença que você está certa", eu diria "não sou a terapeuta certa pra você, lamento".
Imagino que outros terapeutas aceitassem, mas não é a minha linha. Se eu precisar te convencer, não somos as pessoas certas uma para a outra.
Te falei que me sinto muito à vontade para discutir qualquer assunto, e que não tenho receio de discussões inclusive as públicas. Desde a adolescência já participei de muitas arenas públicas, fosse no pátio do colégio, em rodas de amigos, com a família, com meus pais, em fóruns da internet.
E sabe o que eu descobri?
Que discutir não serve pra nada.
Raramente alguém muda de opinião numa discussão. A discussão, o convencimento, não serve pra isso. Não importam seus argumentos, se alguém precisa ser convencido, não vai rolar.
Não importa o que você tiver de provas: muita gente não acredita que a Terra é esférica.
Eu te falei que poderíamos voltar a conversar na semana que vem, mas depois fiquei pensando no seu comentário final, e ainda mais depois das mensagens de hoje. Acho que não vai valer a pena, nem pra mim nem pra você.
Não acredito na utilidade de uma discussão.
Eu já vi pessoas mudarem de opinião sim, mas não é quando alguém vai para discutir, para ser convencido. É quando alguém fala "você disse tal coisa, e fiquei pensando nisso. Sinto que é verdade, mas não entendo bem, você poderia me explicar?", ou "Fiquei impressionada com o que você falou sobre tal assunto, aquilo deu um nó na minha cabeça, achei fascinante, você pode falar mais sobre isso?"
A diferença é que você não chega na conversa com a postura do "convença-me", essa é a postura de guerra. Você está de armadura e surda a qualquer argumento, são momentos em que quem está mandando é o ego, e o ego faz de tudo para que você não mude. Quando você se aproxima com uma curiosidade genuína, esse é o caminho do coração, de quem não precisa provar nenhum ponto, de quem baixou os escudos e se sente disposto a ouvir e talvez até a mudar.
Nossas conversas estão patinando. Você não faz as tarefas que passei, tem várias coisas que já te falei várias vezes, e estou tendo que repetir. Você não acha que é um problema ser dura, rigorosa, e ter esse olhar que julga. Você não acredita que meus conselhos de ações práticas sejam úteis. Te passei várias tarefas e falei da importância da terapia das selfies, você não quis fazer.
Como sempre te falo, eu te agradeço pelas nossas conversas e sua sinceridade. Elas servem para ótimas reflexões, e nunca me senti perdendo tempo com você.
Mas a partir de agora, vendo essa sua postura dura e combativa, acho que nossas interações vão ficar patinando. Eu te falando sobre a importância do amor-próprio, das selfies, de se amar, da lista de qualidades, do não julgamento. E você encontrando motivos para não fazer, e dizendo que precisa de convencimento e argumentos.
Não sou a única verdade. Tenho certeza de que meus conselhos são úteis, que as técnicas funcionam. Mas se elas não combinam com você, tudo bem, apenas não combinam.
Você é uma mulher incrível, com muitos recursos, poder, beleza, coração. Desejo que sua vida melhore dia a dia, que você esteja sempre cada vez mais perto de realizar seus sonhos.
Você pode falar comigo sempre que quiser, mas talvez em alguns casos minha resposta seja "infelizmente esse é um ponto em que não tenho o que comentar, porque acredito que a raiz do problema são as questões de amor-próprio e a busca pelo não julgamento, e já te falei o que penso sobre isso".
Um beijo com muito carinho.
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